[Entrevista] Flavio Tanajura: "Independente da função que esteja exercendo, sempre vou procurar dar o meu melhor"

Postado por: Bruno Chastinet

Vinte anos. Duas décadas. Uma vida. Atualmente, ver um jogador que fique por todo este tempo em um clube soa como piada. Ou mera lembrança de um passado distante. Mas, como em toda regra, há exceção. Na Toca do Leão ela atende pelo nome de Flávio Pinto Tanajura. De preferência apenas Flávio Tanajura. Trinta e sete anos de idade e mais de um terço deles com a pele rubro-negra.

 
Natural de Jequié, no interior da Bahia, Tanajura iniciou a carreira no futebol no maior rival do Vitória, o Bahia. Apenas um jogo como profissional. No Rubro-Negro, a história. Na Toca do Leão, ficou por oito anos seguidos. Disputou 323 partidas. A fidelidade o levou a ser o jogador que por mais vezes entrou em campo pelo Vitória. Em 2000, iniciou uma rápida peregrinação. América-MG, Sport, Flamengo e Paysandu. Cinco anos depois, estava de volta para casa, mas desta vez como auxiliar técnico. Foi treinador, auxiliar técnico, treinador de zagueiros e se prepara para mais uma etapa na sua caminhada pelo Leão: diretor de futebol.



A ideia surgiu de uma necessidade da diretoria. Depois de revelar diversos jogadores e treinadores, o clube decidiu apostar em uma nova formação. O diretor das divisões de base, Epifânio Carneiro, e o vice-presidente financeiro, Carlos Falcão, foram os autores da ideia. A dupla contou com o aval do presidente Alexi Portela e a aceitação de Flávio Tanajura.
 
- Eles acharam que eu tinha o perfil, tinha um relacionamento com os atletas, uma identidade com o clube, e eles me propuseram sair do campo em definitivo. A princípio, eu poderia continuar como auxiliar técnico, mas fazendo essa ligação entre o campo e a diretoria, o que eu não achava interessante, porque você fica lá, fica cá, e isso não é legal – comenta o ex-jogador.
 
A ideia de ser um dirigente não era vista com bons olhos. Mas, no melhor estilo Raul Seixas, Flávio Tanajura se mostra uma verdadeira metamorfose ambulante. A opinião já não é mais a mesma sobre tudo.
 
- Minha esposa que falava muito: ‘Flávio, você não quer trabalhar como gerente, diretor de um clube?’. E eu sempre respondia: ‘Não, trabalhar em um escritório, fechado, não...’. Mas eu também achei difícil quando deixei de ser atleta e fui para a comissão técnica. Toda transição não é fácil. Mas, por incrível que pareça, estou gostando muito.
A transição aconteceu aos poucos. Primeiros as caneleiras deixaram de ser utilizadas. O apito e o boné tomaram o lugar e viraram companheiros constantes dos tempos de auxiliar. Foram cinco anos na comissão técnica, com direito a um jogo como técnico interino (em 2008, no triunfo por 3 a 2 sobre o Ipitanga) e a ser efetivado durante algumas partidas do Campeonato do Nordeste de 2010.
Novo perfil na Toca do Leão
 
A transição, de acordo com o próprio ex-jogador, tem sido tranquila. Além da mudança nas atribuições do dia a dia, Tanajura lembra que é preciso modificar a forma de lidar com os jogadores do clube.
 
- Hoje ainda temos muitos treinadores que têm um resquício do atleta e fica um cara ‘boleirão’, que quer jogar com o time, que quer brincar. Você tem que separar isso, tem que ter uma postura. Eu tive essa transição quando fui para a comissão técnica e agora tenho que ter outra postura como dirigente. É uma outra forma de tratar, porque eu vou ter que negociar com ele [jogador], tenho que pensar no clube, não posso agir tanto com o coração.
 
A versão do Flávio Tanajura dirigente não mudou apenas o estilo. Pós-graduado em Fisiologia Esportiva, o novo dirigente tem apostado na formação teórica. Tanto que iniciou recentemente um curso de MBA em Gestão Esportiva em uma faculdade de Salvador.
 
O lado teórico, na visão do ex-zagueiro, é importante, mas não tanto quanto a vivência do dia a dia. Para Tanajura, o futebol precisa adaptar o planejamento da teoria para reverter em sucesso. Como exemplo, ele utiliza os ensinamentos de Ferran Soriano, vice-presidente do Barcelona de 2003 a 2008.
 
- Esse outro lado é importante, que vai lhe dar ferramentas, subsídios que vão ajudar. Mas a experiência vem no dia a dia. O futebol é diferente de tudo. Envolve atleta, vaidade, imprensa, torcedor. Claro que o futebol não é matemática, mas é uma probabilidade de sucesso muito grande quando você faz tudo direito, tudo certinho e mantém estrutura. A tendência de dar certo é muito maior do que começar fazendo tudo errado e mudar tudo. Estou lendo um livro agora de Ferran Soriano, que era do Barcelona, e ele escreve: ‘A bola não entra por acaso’. Ele fala muito de gestão. Se a bola pega, bate e sai, está tudo errado. Se a bola pega, bate e entra, está tudo certo. Não é assim. Tem que ter um planejamento, uma organização, e o clube tem procurado fazer isso.
 
Tendência nacional
 
Contar com um ex-jogador com identificação com o clube como dirigente não tem sido novidade no futebol. Diversas equipes do Brasil têm seguido esta linha. No Corinthians, Edu Gaspar cuida do departamento de futebol. No Palmeiras, a função é desempenhada por César Sampaio. Prestes a assumir o posto no Vitória, o baiano aprova este novo momento e tem feito de tudo para se aproximar dos antigos colegas na nova função.
 
Acompanhado do atual gestor de futebol do Rubro-Negro, Raimundo Queiroz, Tanajura tem participado das reuniões da Associação Brasileira dos Executivos de Futebol (Abex). Lá, encontra profissionais como Felipe Ximenes, Rodrigo Caetano e, até mesmo, René Simões. A troca de informações com colegas mais experientes e o conhecimento da Toca do Leão têm sido a receita neste começo em sua nova área.
 
- Eu conheço o Vitória desde a divisão de base, fui atleta. Acho que ter esse conhecimento geral do clube ajuda muito. Às vezes, em uma coisa final, como a escolha da contratação de um atleta, você tem que estar ligado e conhecer tudo, saber o perfil dos atletas que dão certo, saber o que tem na base para encaixar. Ter o conhecimento do clube ajuda bastante – acredita.
E não é só o fato de ter atuado pelo Vitória que tem auxiliado Tanajura nestes primeiros momentos como dirigente. Os relacionamentos feitos da época de jogador também têm gerado bons frutos para o time baiano.
 
- Pelo relacionamento que eu tive com treinadores, atletas e empresários. Eu sempre procuro informação com o pessoal do campo, porque às vezes o empresário quer que o atleta venha, mas o cara de campo, que conviveu, é o que sabe. É mais fácil, porque a gente tem mais segurança. No futebol sempre tem erro, a gente vai sempre errar, mas a gente busca minimizar o erro. Com informações de pessoas que são confiáveis, pessoas que conhecem de futebol – e esse foi um dos pensamentos de Alexi Portela ao colocar Tanajura como membro da diretoria.
 
Novas facilidades e vida mais difícil. Com a experiência de quem já percorreu quase todas as vertentes de trabalho de um time de futebol, Tanajura acredita que a situação vai ficando cada vez mais complicada.
 
- Para mim o mais fácil era jogar, mas em que sentido? No sentido de que eu dependia de mim mesmo, mas, claro, às vezes eu podia não estar bem. Mas até no fato de extravasar era mais fácil. Se eu estava nervoso, eu chegava dentro de campo e soltava tudo. Na comissão técnica eu tinha que depender dos atletas. Agora, como dirigente, eu dependo da comissão técnica e dos atletas.
 
‘Sem pressa’
 
Em uma espécie de estágio da nova função, Flávio Tanajura tem feito de tudo na Toca do Leão. Da época de auxiliar, manteve o costume de utilizar bem os dados e buscas no computador. Com os profissionais antigos tem aprendido os trâmites da administração no futebol. Para isso, conta com a ajuda de toda a diretoria do Vitória.
 
O carisma e a educação do ex-jogador contagiam. A caricatura pintada no muro do Barradão terá que ganhar uma nova versão. A roupa social passou a ser o uniforme diário de quem, em breve, deve assumir o posto de diretor de futebol do Vitória.
 
- Alexi conversa muito comigo sobre isso. A intenção dele é me preparar para isso (ser diretor). Eu não tenho pressa. Acho que ainda tenho que aprender muito. Estou começando agora, mas tenho pretensões, sim. Tenho gostado da área. Eu achava que poderia, de repente, retornar para trabalhar em campo, mas estou gostando e trabalhando para isso (ser diretor). Estou estudando, pesquisando, me aperfeiçoando, lendo muito – revela o ex-zagueiro.
Com a paciência de quem se transforma e tem se adaptado fácil às novas funções, Flávio Tanajura mantém um antigo sonho. Com a evolução que presenciou na Toca do Leão, o novo dirigente acredita que o time está perto de conseguir a primeira conquista nacional.
 
Na liderança isolada da Série B do Campeonato Brasileiro, o Vitória é o favorito para conquistar a competição. Após ajudar a formar o elenco, Flávio Tanajura vê o time no caminho certo, mas alerta para a necessidade de manter os pés no chão. Com uma fé inabalável, acredita que a conquista deste ano pode ser o primeiro passo para uma transformação no Rubro-Negro.
 
- Cheguei há mais de 20 anos, tive a oportunidade de jogar muito como atleta, ajudar na comissão técnica e agora pensar o clube e poder ajudar em outra área. Independente da área que seja, da função que esteja exercendo, sempre vou procurar dar o meu melhor. O privilégio é todo meu. Vi o Vitória crescendo. Cheguei aqui em fevereiro de 1992. O Vitória investiu na base e hoje está muito estruturado. Como eu sempre falei: meu objetivo sempre foi dar um título nacional ao clube. Pelo que eu vejo dos outros clubes, já dizia que estava perto. O Vitória tem crescido muito em termo de estrutura, em termo de respeito nacional. A base também tem feito um trabalho muito forte, muito bom para revelar atletas. A gente está galgando, caminhando, e tenho uma esperança muito grande em um futuro próximo. Acredito que Deus está nos preparando nesse caminho.
 
Com a fé em Deus e a confiança no Vitória, Tanajura segue escrevendo a história em vermelho e preto. Para ele, ser Vitória não é simplesmente vestir a camisa e ir ao estádio. Não é sonhar com títulos. É realizá-los. Ser Vitória, para o ex-zagueiro, é refazer os sonhos a cada novo pedido da diretoria. Ser Vitória, para Flávio Tanajura, é doar a vida por duas cores, por um clube. E isso ele faz como ninguém.
Veja um gol de Flavio Tanajura jogando no Vitória marcando contra o Bahia em 1995:

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