[Entrevista] Alex Portela: ' Banquei a folha por muito tempo'

LEIA na integra a entrevista do Presidente ALEXI PORTELA, concedida ao reportér Moysés Suzart do Jornal A TARDE. Entrevista esclarecedora, sobre como o presidente encontrou o VITÓRIA, como sanou dívidas, montou elencos e sobre o futuro do LEÃO.
Que balanço você faz de sua gestão no clube? Qual foi o ponto mais positivo?
Junto com as pessoas que tiveram ao meu lado nos oito anos, entre interino e presidente eleito, conseguimos reerguer o Vitória. Saneamos o clube e trouxemos de volta para o torcedor a alegria de ser rubro-negro. Hoje, o torcedor tem novamente o orgulho  ser Vitória.
O que você se arrepende de ter feito na sua gestão?
Não era meu sonho ser presidente do Vitória. Meu pai já tinha sido presidente e eu sabia o tamanho do problema. Porém, quando vi o Vitória na Terceira Divisão, mudei de ideia. Me arrependo de não ter feito uma auditoria profunda para mostrar ao torcedor como estava o clube. Havia notas fiscais de R$ 3,6 milhões, de R$ 2,4 milhões para recuperação de drenagem que nunca ocorreu, dadas a empresas de eletrodomésticos. Ainda temos isso tudo no clube. Usavam notas frias... Se fosse hoje, seria bem diferente.
Então você se arrepende de não ter denunciado o que tinha encontrado no clube...
Quando entramos, eu não queria olhar para trás. Entrei apenas querendo melhorar o Vitória, sem mirar o retrovisor. Porém, me arrependi de não ter olhado para trás. Teve um grupo formado para fazer isto, mas não foi feito, pois havia muito incêndio para apagar no clube. Ficamos sozinhos para fazer muita coisa de uma vez. Então, decidimos que a prioridade era reerguer o clube.
E o que você encontrou para disputar a Série C de 2006?
Encontramos os campos destruídos; um time caro, com jogadores ganhando um absurdo. Marcelo Heleno (zagueiro) ainda tinha um contrato de dois anos! Vários atletas com salários fora da realidade... Funcionários alegavam que estavam há cinco meses sem receber salários e vale transporte. Estava um negócio... [pausa] muito complicado, viu. Quase inviável. Na época, tive uma reunião com Zé Rocha e falávamos como iríamos conseguir dinheiro. Ninguém queria tirar do bolso para bancar o Vitória. Me chamaram de maluco quando tirei do meu. De fato, foi um pouco de maluquice. Porém, eu acreditava no meu projeto.
Por quanto tempo você sustentou o Vitória?
Mais de três anos...  Não me arrependo. Conseguimos reverter tudo isto e hoje o Vitória não deve a ninguém. Somos autossustentáveis. O primeiro dinheiro que usei no Vitória foi pela compra de Índio. Foi feita uma reunião decidindo sobre a compra do jogador, pois ele poderia ir para o Bahia. Porém, ninguém falava em dinheiro. Iria arrumar onde? Eu perguntei quanto era e dei os R$ 100 mil. Alguns sugeriram para que eu ficasse com os direitos econômicos, mas eu recusei. No dia que o Vitória pudesse me devolver o dinheiro, devolveria. Trouxemos Índio, Bida e Garrinchinha. Paguei a folha do Vitória durante muito tempo, mas o clube não me deve mais nada.
Você recebe muitas críticas do ex-presidente Paulo Carneiro, que assegurou ter deixado o clube estruturado e com uma "dívida muito pequena"...
Ele fez alguma coisa pelo clube? Claro que fez. Porém, ele vivia do clube, sempre viveu. O intuito de algumas pessoas é voltar a viver do clube, mas o Vitória está estruturado agora. Basta conversar com alguns funcionários  para saber quem fala a verdade.   Um clube não pode cair da Série A para C por acaso. Algumas coisas estavam acontecendo. O Vitória não tinha coragem nem de demitir o contador. Por que? Quem demitiu o contador foi eu. Ele ameaçou, disse que iria botar a boca no mundo e eu mandei que fizesse isto. Entrou apenas com uma ação contra o clube...
Depois da queda para a Série C, o Vitória conseguiu voltar para elite na mesma velocidade. Como foi este feito?
A primeira coisa que fiz foi reunir o elenco e dizer que o Vitória não atrasaria mais os salários. E nunca mais atrasamos. Quando estamos em dia, podemos cobrar empenho. Na Série C de 2006, precisávamos ganhar seis de sete jogos para subirmos. Todo mundo querendo trocar o técnico (Mauro Fernandes), mas não tinha nenhum nome. Chamei na minha sala Leandro Domingues, Preto, Sandro e Vanderson. Perguntei a eles onde estavam os craques do time e porque estávamos naquela situação. Naquela época, alguns, como Índio, já estavam começando a ir pra farra. Cobrei e tivemos o retorno. Os caras jogaram muito.
Você já atropelou decisões de diretores de futebol?
Muitas vezes. Quem montou o time de 2012 foi eu. Decidimos profissionalizar o clube e trouxemos um diretor do Sul (Newton Drummond). Ótimo profissional. Falaram que o elenco era bom por causa dele, mas quem montou 100% do time foi eu. O que ouvia dele era que estava difícil trazer jogadores. Acabei tomando a frente...
Falavam que você não coçava o bolso para contratar. Qual são as dificuldades?
Quitamos muitas dívidas nos anos anteriores. Nós pagamos mais de R$ 30 milhões de dívidas do Vitória, não apenas com impostos, mas também com causas trabalhistas que davam mais de R$ 12 milhões. Era difícil construir um elenco com tanta coisa para pagar. Hoje, não temos mais dívidas. O que está acontecendo com o clube? A receita para pagar dívidas está diminuindo e voltando para o futebol. A cada temporada estamos conseguindo construir um elenco melhor. O que a maioria faz? Esquece a dívida da gestão anterior e não paga nada. Eu paguei. Fiz acordo com o TRT e 15% da receita do Vitória ia direto para 2ª instância para quitar nossas dívidas. Não estava brincando quando disse no início do ano que brigaríamos pela Libertadores. Nossa receita está crescendo com a quitação das dívidas.

O que foi feito com as dívidas do Vitória S/A? Ainda constam como dívidas ativas?
Uma das primeiras coisas que fiz foi viajar para a Argentina no intuito de comprar a parte do Vitória S/A. O clube devia mais de 4 milhões de dólares. Disse que não tínhamos este dinheiro. Eles bradaram, gritaram. Eu, calmamente, mandei que eles então viessem cuidar do clube. Foi tenso. Foi preciso peito para chegar lá e dizer que não iríamos pagar. Com o tempo, eles foram amansando e fechamos a quitação por 1 milhão de dólares. Pagamos mais R$ 12 milhões com outras despesas do Vitória S/A, como confissões de dívidas. Óbvio que houve coisas que não reconhecemos, algumas absurdas... Temos dívidas feitas no  último dia da gestão anterior. Pelo amor de Deus, bicho... Não vamos reconhecer!
Paulo Carneiro revelou que o Vitória já se comprometeu em jogar 10 jogos na Arena Fonte Nova em 2014 e a tendência é abandonar o Barradão. O que tem de verdade nisso?
Quem não tem o que falar, inventa mentiras. Nunca disse que iríamos jogar lá ano que vem. Falei que jogaríamos cinco partidas este ano e jogamos. Não tem nada negociado e nossa casa é o Barradão. Não vamos mais jogar na Arena? Não sei, eu nem serei mais o presidente. É preciso ser pontual. É bom jogarmos uma partida ou outra na Fonte Nova, mas não será regra.
Qual sua avaliação sobre os jogos do Vitória na Arena Fonte Nova?
É nossa casa de veraneio. Foi muito bom jogar lá. Tivemos dois jogos históricos contra nosso rival: os 5 a 1 e os 7 a 3 foram marcantes. A Fonte é um patrimônio baiano, mas ainda tenho um pé atrás. Não sei se o povo brasileiro está preparado para adotar um equipamento deste porte com a renda que temos no país. Não é barato manter uma arena. Hoje, estamos no oba-oba com Copa do Mundo, mas fico preocupado como serão geridos os estádios depois. É incompatível com a nossa realidade. Só o quadro móvel da Fonte não é menos de R$ 100 mil por jogo.
O acesso continua sendo o maior calo do Barradão?
Com certeza. Até o preço do ingresso é influenciado por isso. Porém, nos últimos jogos melhorou bastante. Já critiquei bastante a Transalvador, mas eles estão de parabéns na operação feita nas rodadas recentes. Melhorou muito. Não é apenas obra ou via expressa. Faltava vontade política para ajudar no acesso. Hoje temos novas pessoas na Transalvador que estão abraçando a causa. Melhorou 60%.
Projeto Arena Barradão
Existe algum projeto para o Barradão se tornar arena?
Três empresas mostraram interesse na revitalização do Barradão, mas até nisso o acesso ao estádio prejudica. Nenhum investidor quer colocar seu dinheiro antes de ter a via expressa saindo do papel. Queremos colocar cadeiras em todo o estádio, cobertura e camarotes. Aí, vira arena.
A oposição alegou que a lista de sócios só foi liberada por causa da liminar e assim mesmo não foi cumprida totalmente, pois não diferenciava sócios inadimplentes e votantes. Qual a versão oficial?
Nós demos a relação de todos os sócios. O que não posso dar é endereço, CPF e telefone dos sócios. É invasão de privacidade... 
O Vitória Século 21  inclusive fala em intervenção, como aconteceu no rival...
É preciso ter oposição. Porém, não entendo o Século 21 como oposição. Não diz nada... São pessoas que [pausa]... É só ver o que aconteceu com quem estava na frente do projeto e era candidato.  Se você analisar, não existe clube mais aberto como o Vitória.  Se você quiser juntar 300 amigos e se associar ao clube pagando 40 reais por mês, depois de um ano e meio você pode se candidatar no conselho e na presidência.  Eles que não conseguiram reunir 300 pessoas... Que oposição é essa? Eles querem criar confusão. Desejam, na verdade, mamar na teta do Leão.   Encontramos o Leão banguelo e hoje, com o Leão de banho tomado, com os dentes afiados e  a juba crescida, eles querem voltar novamente para deixar tudo da mesma maneira que largaram.
Qual sua opinião sobre o Bom Senso F.C?
Eu tenho a reivindicação deles. O documento deles se resume a uma coisa: calendário. Existem cinco tópicos no documento, mas quatro são referentes a calendário. Eles não podem querer apenas direitos. É preciso ter deveres também. Um jogador não pode simplesmente chegar e dizer que quer jogar menos. Vai ganhar menos? Eles querem o que existe de melhor na lei Pelé e na CLT. É preciso um meio termo.
No critério comprometimento, este grupo atual foi o mais disciplinado?
Sem dúvida. Demos muita sorte nisso. Este ano contratamos jogadores profissionais. Os estrangeiros ajudaram muito na disciplina deste grupo. Todos os gringos são responsáveis, assim como o restante do grupo. Todos estão ali para trabalhar e cumprir seus deveres.
Você defende a inclusão dos estrangeiros no País. Existe a possibilidade de 2014 permitir seis gringos no time titular, ao invés de três?
É verdade. É preciso aumentar o número de estrangeiros. O primeiro aspecto é reduzir um pouco  o nível salarial do jogador brasileiro. Hoje, o Brasil extrapolou. Para um time que tem uma renda bem inferior aos  clubes do Sul, a saída é buscar atletas de fora. Para 2014, a CBF deve liberar o uso de cinco ou seis atletas de fora em cada jogo. A conversa está avançada.
Há um clamor pela permanência de Escudero e Maxi no elenco. O que tem de avanço nestas renovações?
Já temos contrato de dois anos com Cáceres. Conversamos com o empresário de Escudero e ele viajou para Argentina prometendo voltar para termos uma conversa definitiva. Temos interesse em manter os três no grupo. Não poderemos comprar Escudero, mas queremos renovar o empréstimo. Maxi é dono do próprio passe. Não foi verdade que o Palmeiras procurou o atleta. Eu mesmo conversei com o Brunoro (vice de futebol do Verdão) e ele me garantiu que não. O importante é que Maxi e Escudero querem ficar. Precisamos ter cuidado com os leilões. Tem dois anos que queríamos William Henrique, mas o empresário só liberava por um preço astronômico. Compramos agora quase de graça.
Outros atletas podem renovar com o clube?
No último jogo, contra o Santos, a mulher e a sogra de Juan assistiram  ao nosso lado na cabine. A sogra dele fez questão de me dizer que nunca mais tinha visto  Juan tão feliz num clube. Juan, Ayrton e outros atletas estão na nossa lista de renovação. Precisamos fazer um esforço para mantê-los no elenco do próximo ano.
Qual sua avaliação de Ney Franco? Ele fica?
Contra o Santos, ele me falou que vai continuar no Vitória. Em 2009, após saída de Carpegiani, eu queria ele. Tínhamos dois nomes: Ney e Mancini. Eu queria o primeiro, mas Jorginho Sampaio trouxe Mancini, pois já conhecia o grupo. Uma semana depois houve um jogo no Barradão e Ney veio defendendo o Coritiba. Fiquei conversando com ele depois do jogo e perguntei porque não veio para o Vitória. Ele me falou que não tinha sido procurado por nós. Me retei, bicho...
Você só perdeu um Estadual para o  Bahia na sua gestão. Aprendeu a ganhar do rival?
Na realidade, eu fiquei chateado quando o Colo-Colo e Bahia de Feira foram para as finais. Qualquer outro clube que fosse para a final eu sabia que seria complicado. Quando era o Bahia na decisão, eu já sabia que iria conquistar o título. Quando perdi em 2012 foi algo atípico. Repare que não perdemos nenhum Ba-Vi. Infelizmente, nosso goleiro levou três gols fáceis. Foi um acaso. Gosto muito de decidir com o Bahia, pois sei que será um título certo...
Qual foi seu melhor Ba-Vi como presidente? E o pior?
Foram três marcantes: os 6 a 5 (2007), 5 a 1 e os 7 a 3 (ambos em 2013). O pior foi o 3 a 3 contra o Bahia, em Pituaçu. Éramos superiores e não merecíamos perder o título.
Vitória Campeão Baiano 2013
Se você fosse convidado para trabalhar no Bahia, você iria?
De jeito nenhum...
O Bahia cai?
Não me preocupo com isto. Tenho outras coisas mais importantes para me preocupar no Vitória.
Você pretende esquecer um pouco futebol quando sair da presidência?
Futebol é uma cachaça. Eu faço parte da Liga Nordeste. Vi um futuro promissor no Nordestão e estamos crescendo muito. O presidente do Flamengo já me disse que pretende participar da Copa do Nordeste como convidado. Só está esperando o convite. Hoje, a cota por jogo do Nordestão é maior que a Série B. O clube recebe mais. Imagina o Flamengo aqui?
O crescimento do Nordestão pode engolir os estaduais?
Os estaduais não podem acabar. Nunca. O que cria a rivalidade é o estadual.  Defendo a redução das datas, nunca a extinção.
O que dizer para torcida restando pouco para sua saída?
Primeiramente, agradecer. Trabalhar entre a razão e a paixão é complicado. Sempre fui respeitado. Nunca precisei de segurança. Não usei o clube para o meu favorecimento. É amor mesmo. Estamos perto da Libertadores e, na minha despedida, contra o Flamengo, quero coroar nossa vaga.
Fonte: A Tarde

6 comentários:

  1. você merece alex- pra cima deles leao'

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  2. GRANDE PRESIDENTE, quem assumir tem que se espelhar neste homem. So discordo de uma coisa, eu, pessoalmente, nao quero que o barradao se transforme numa arena, sou a favor de uma reforma e ampliação, mas o carater de estadio tem que ser mantido. Arena é uma coisa muito gay, combina perfeitamente com o Cahia kkkkkk
    no mais, MUITO OBRIGADO ALEX

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  3. O melhor presidente que ja tivemos , homem sério e honesto!! Parabéns

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  4. Alexi, por mim e 100% da torcida do Vitória vc permaneceria aqui pra sempre.
    Grande exemplo de presidente, tenho certeza q qualquer clube queria ter um presidente com vc.
    Exelente Gestão...Está de Parabéns!

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  5. Obrigado Sr. Alex Portela.muito e muito obrigado, por tudo, só peço, que não deixe o Vitoria de fez, assuma como diretor financeiro, pois as contas do vitoria sem a sua competencia administrativa pode voltar a ser um caos.

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  6. Um gestor sério e correto, um dirigente honrado! Parabéns

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